sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Os 12 elementos da gestão – quais são os seus?

César Souza analisa o que pode ser uma vantagem competitiva da sua empresa

Gary Hamel, o líder do prestigioso laboratório de inovação em gestão empresarial da London Business School para o qual todos os olhos executivos deveriam estar voltados, costuma dizer que o progresso econômico é produto de um ou mais entre quatro tipos de inovação: a social, a institucional, a tecnológica e a de gestão. Em outras palavras, gestão confere vantagem competitiva e do tipo duradouro. Se sabemos reunir pessoas para produzir coisas em escala e com produtividade, sabemos gerenciar. Mas, para isso, deve-se conjugar bem pelo menos cinco verbos: motivar, organizar, planejar, delegar e avaliar, nas palavras de Hamel.

O leitor já parou para pensar em quais poderiam ser os aspectos de gestão que conferem vantagem competitiva a sua empresa? HSM sistematizou a gestão em 12 elementos, que servem como unidade de raciocínio para essa auto-análise. Atente que dificilmente uma empresa se destaca em todos eles; talvez isso nem seja necessário para o ganho de vantagem competitiva. Mas ter três ou quatro deles como pontos realmente fortes em seu negócio é algo que constitui vantagem competitiva potencial.

Pedimos ao consultor Cesar Souza que posicionasse o que seria o “modo padrão” de gerenciar das empresas que atuam no Brasil em relação a cada um desses elementos. Seus comentários são críticos e provocadores, mas nos fazem pensar, e, se tecem considerações sobre o que é regra em cada dimensão da gestão, destacam as salutares exceções. A escolha de Souza não foi acidental: ele tem uma combinação rara de experiências como executivo (trabalhou para a Odebrecht por 20 anos, em operações internacionais, inclusive) e como pensador da gestão (em seu papel de consultor e autor de livro).

1. ORGANIZAÇÃO
No Brasil, ela ainda é muito piramidal, hierárquica, engessada, pouco inovadora. O cliente ainda não faz parte do organograma das empresas brasileiras, na maioria das vezes; ele ainda é tratado como se estivesse “do lado de fora” da empresa. Os clientes deveriam estar NO CENTRO de qualquer organograma. Essa a mudança de paradigma de que precisamos. A organização vigente ainda estimula a fragmentação, a departamentalização e a consequente falta de integração entre as áreas, os feudos, silos, etc. Mas existem exceções que vão contra essa regra e devem ser tomadas como inspiração.

Exemplo inspirador empresa: Marcopolo
Exemplo inspirador profissional: Janete Vaz (Laboratório Sabin)

2. LIDERANÇA
Ainda é sinônimo de cargo, de topo e de carisma na maior parte do Brasil. Ainda muito orientada para a formação de seguidores que de outros líderes. A sucessão continua sendo o “calcanhar-de-Aquiles” da maioria das empresas. Poucos líderes possuem substitutos identificados ou se empenham em formá-los como novos líderes. O líder ainda é visto como um visionário, uma pessoa extraordinária de certa forma. Confunde-se liderança com celebridade –ou com popularidade. Há necessidade de formar lideres em TODOS  os níveis. As empresas vencedoras no Brasil serão as que souberem montar verdadeiras “fábricas de líderes”. Algumas exceções de vanguarda são:

Exemplo inspirador empresa: Odebrecht
Exemplo inspirador profissional: Ozires Silva (fundador Embraer)  /  Fábio Barbosa (Santander) / Dra. Zilda Arns (in memoriam)

3. GESTÃO DE PESSOAS
As empresas que atuam no Brasil costumam ainda priorizar os aspectos formais, de infraestrutura como Recrutamento, Seleção, Treinamento, quando a ênfase deveria ser na dimensão psicológica. Há necessidade de evoluir para uma atuação mais estratégica, mais focada no negócio e nos resultados da empresa e menos nos processos e nas ferramentas. Precisamos mais de pensamento inspirador de pessoas que de técnicas de gestão de pessoas.

Exemplo inspirador empresa: Magazine Luiza
Exemplo inspirador profissional: João Dornellas (VP de RH da Nestlé) e Chieko Aoki (Blue Tree)


4.    GESTÃO DO CONHECIMENTO
A visão preponderante de gestão do conhecimento no Brasil ainda é tecnológica, quando deveria ser mais focada nas pessoas. Há muito desperdício de conhecimento devido à regra da aposentadoria concebida na era industrial e ainda preservada de forma pouco inteligente.
Exemplo inspirador empresa: Grupo Algar
Exemplo inspirador profissional: Luiz Edmundo Rosas (Grupo Anima Educação)

5.    MARKETING E RELACIONAMENTO COM CLIENTES
Há ainda muita retórica nessa área, pois o foco ainda é no produto, no processo, na norma. Em muitos casos o cliente anda é tolerado, ou seja, percebido como um mal necessário.
Exemplo inspirador: Laboratórios Fleury
Exemplo inspirador: João Batista, motorista de táxi em São Paulo


6.    MARCAS
Começamos a despertar para o valor intangível da gestão das marcas. Há um longo caminho a percorrer, mas evoluímos muito.
Exemplo inspirador empresa: ITAÚ
Exemplo inspirador profissional: Julio Ribeiro (Talent)

7.    INOVAÇÃO
Prevalece a visão míope da inovação apenas de produtos e processos e tecnologia. Precisamos avançar para a visão da inovação nos relacionamentos, na gestão de clientes, gestão de fornecedores, parceiros, gestão de pessoas, comunidades etc.
Exemplo inspirador: Brasilata (Rio Verde, Goiás) , Whirlpool (Brastemp), 3M
Exemplo inspirador profissional: Fernando Madeira (Portal Terra) e Paulo Bastos (Escolas de Samba RJ)


8.    CULTURA
Permanece como o ativo ou o passivo que não aparece nos balanços das empresas. Ainda um tabu, pouco explicitada, disseminada, praticada. Ainda predominam pérolas do pensamento empresarial como “manda quem pode obedece quem tem juízo” (centralização) e o “cada macaco no seu galho” (departamentalização) e o “você é pago para fazer e não para pensar” (elitismo da estratégia). Esforços feitos pra explicitar valores, mas acabam se tornando frases e palavras genéricas, sem significado real que oriente a postura e o comportamento das pessoas na linha de frente.
Exemplo inspirador empresa: Natura, Odebrecht.
Exemplo inspirador profissional: Ulisses Tapajós (Masa) e o esforço conjunto de Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles na fusão Itaú / Unibanco


9.    CRESCIMENTO
A estratégia preferencial tem sido a onda de fusões e aquisições, que nem sempre gera resultados e, às vezes, produz mais inchamento temporário que crescimento real e sustentável. As diversificações nem sempre se dão a partir de competências dominadas. O crescimento tem sido mais em função da macroeconomia saudável e da demanda que como consequência de estratégias conscientes e posicionamento para crescer.
Exemplo inspirador: Nestlé em quase todas as categorias de produtos e mercados, especial nas classes C,D e E
Exemplo inspirador profissional: Ivan Zurita (CEO da Nestlé)

10.    CONCORRENTES
Verifica-se muita imaturidade no relacionamento com concorrentes, oscilando da espionagem, elegantemente chamada de “Inteligência Competitiva”,  até simplesmente ignorar o competidor. Concorrência predatória muitas vezes. Acho que o maior concorrente de uma empresa não é quem fabrica os mesmos produtos ou presta os mesmos serviços. O maior concorrente está quase sempre DENTRO da própria empresa –na falta de rumo claro, na falta de integração, na gestão errada de clientes e -essoas, na estrutura inadequada etc.
Exemplo inspirador: não consigo lembrar de nenhum, o que comprova a tese

11.    SUSTENTABILIDADE
Vemos muita encenação, retórica e jogadas para a platéia. Ainda não se pratica a sustentabilidade como um pilar da Estratégia e como Vantagem Competitiva.
Exemplo inspirador: Natura e Santander (este, no que tange às práticas vindas do Banco Real)
Exemplo inspirador profissional: Marina Silva (ex-candidata a Presidente do Brasil)

Cesar Souza para o site HSM

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário